segunda-feira, 23 de maio de 2011

Médico cesarista? Tô fora !!

Um texto simples e muito bom, com dicas de perguntas para você fazer ao seu médico e descobrir se ele realmente apoia o parto normal. Espero que curtam bastante o texto.


"Seu médico é a favor do parto normal?

Confira algumas perguntas-chave que vai dar a você uma ideia da postura do profissional.

1. Parto normal e cesárea dão na mesma? Por que motivos você faria uma cesárea?  
Deixe-o falar, expor seus métodos. Tem médicos que já começam assim: “Mas parto normal, em São Paulo, que o hospital é longe, e tem trânsito? Não é melhor marcar logo uma cesárea?”. Se não ficar satisfeita com a resposta, cheque depois com a secretária, como quem não quer nada, qual é a taxa de parto normal e de cesárea do profissional. Converse também com outras pacientes. A sala de espera é ótima para fazer essa pesquisa.
2. Qual é a sua taxa de partos normais? Quantos fez este ano? Quanto durou o mais demorado? O ideal é que o médico não titubeie e que, pelo menos em algum caso, tenha esperado o parto acontecer, mesmo que demorado. Estranhe se, ao longo dos vários meses do pré-natal, ele nunca desmarcar uma consulta por estar acompanhando um parto. 
3. Quanto tempo você espera após a 40a semana? Se a resposta for: “Nem um dia, é perigoso!” ou algo próximo disso, desconfie. Se o bebê estiver bem e a mãe idem, esperar 42 semanas é normal. 

4. Que procedimentos você usa na hora do parto? Alguns médicos costumam aplicar soro com ocitocina ou romper a bolsa para acelerar as contrações logo no início do trabalho. Muitos também fazem, de rotina, um corte no períneo (episiotomia), sem avaliar se isso é realmente necessário. São indicações de que o profissional não tem paciência para esperar o parto desenvolver-se normalmente, o que pode demorar até 18 horas. Médicos mais naturalistas deixam o parto acontecer, com o menor número de intervenções possíveis de sua parte. 


5. Vou ter liberdade para escolher a posição na qual me sentir mais confortável ou terei de passar o tempo todo na cama? Deitar de costas com as pernas para o alto é bastante dolorido. Essa posição faz com que o peso do útero comprima vasos sangüíneos localizados nas costas, o que pode provocar falta de ar para a mãe e de oxigenação para o bebê. O ideal é que o obstetra dê à gestante o direito de escolha. Muitas preferem caminhar, sentar ou ficar de cócoras nas contrações. 

6. Quero fazer um plano de parto, dizendo como gostaria que tudo corresse no dia: você assinaria esse documento, me indicaria leituras? O médico deve incentivar a mulher a tomar pé da situação. Para o profissional pró parto normal, quanto mais informação a paciente tiver, melhor. O plano de parto é uma maneira de comprometer seu médico."


Mil beijocas e Namastê 

Doula Patii Fróes 
Carinho, apoio e cuidado no momento que a mulher mais precisa.




segunda-feira, 16 de maio de 2011

Motivos reais para indicação da cesariana

Conheça os motivos alegados pelos médicos – e entenda porque nem todos eles significam que a cesárea seja, de fato, a única opção.
O Brasil é recordista mundial em número de cesarianas. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que 15% dos partos sejam feitos desta forma, na rede médica particular brasileira este número chega a 84%, segundo dado da Agência Nacional de Saúde. As razões são muitas: desde remuneração insuficiente por parte dos convênios aos médicos que fazem parto natural até o medo das dores do parto. No entanto, o parto normal tem várias vantagens, como recuperação mais rápida e menos dolorida da mãe, menor risco de infecções e hemorragias e menor risco de dificuldade respiratória no bebê. O mais importante é que a escolha seja feita pela principal personagem desta história: a mãe.
Como donos da informação, muitos obstetras não admitem questionamentos, diz a ginecologista e obstetra Melania Amorim.
É difícil argumentar quando não se tem essas informações. Afinal de contas, quem está dizendo isso é o médico em quem a mulher confia e que acompanhou todo o pré-natal”, completa a obstetra Andrea Campos.
Os argumentos listados abaixo são comumente ouvidos pelas gestantes, mas nem sempre significam que à mãe só resta a opção da cesárea. Use toda informação a seu favor – até para encontrar um obstetra alinhado com seus objetivos. O ideal é que, em cada caso abaixo, o médico seja claro em relação às porcentagens reais de risco e ofereça informações completas para a escolha da mãe.
O bebê está com o cordão enrolado”
“A ocorrência é muito comum e acomete até 40% dos partos”, conta Melania. Só que o diagnóstico de circular de cordão – quando o cordão umbilical está enrolado em qualquer parte do corpo do bebê – não é determinante, porque ele se mexe dentro da barriga o tempo todo. A ultrassonografia pode mostrar uma circular que irá se desfazer e o bebê nascer sem circular – ou, ao contrário, o bebê pode não apresentar circular no ultrassom e nascer com circular. “O bebê não ‘respira’ como nós, ele está em um meio líquido, seu pulmão é fechado e sua oxigenação é através do cordão umbilical. Ao nascer e observar a presença de circular, apenas retira-se, como um ‘cachecol’, pela cabeça ou corpinho”, explica a obstetra Mariana Simões.
Você está com a pressão alta” ou “Você está com a pressão baixa”
A pressão baixa é comum na gravidez, não requer nenhuma medida drástica. Já a pressão alta pode levar a uma interrupção da gestação – não necessariamente cirúrgica. “Isso pode ser feito através da indução de um parto normal”, explica a Andrea Campos. Os obstetras podem se utilizar de hormônios ou procedimentos mecânicos, como o rompimento artificial da bolsa ou exames de toque vigorosos.
O bebê não está encaixado”O posicionamento correto do bebê pode acontecer só durante o trabalho de parto. São as contrações efetivas que fazem com que ele “desça” e se encaixe.
O bebê passou do tempo”
“Bebês não ‘passam do tempo’, apenas têm um tempo diferente de maturidade. Segundo estudos mais recentes, após 41 semanas e 1 dia deve haver acompanhamento, mas não interrupção com cesárea”, diz Mariana. De qualquer forma, mesmo nestes casos a solução não é só a cesárea – também dá para acelerar ou induzir o trabalho de parto.
Os batimentos do bebê estão acelerados”
Bebês dormem e se movimentam. Como nós, se dormimos ou estamos em repouso, há uma queda do batimento. Se nos agitamos, os batimentos se aceleram. Agora, se há uma aceleração persistente e foram excluídas causas fisiológicas – como taquicardia ou febre da mãe – pode ser indício de sofrimento fetal. “Neste caso, a cesariana pode ser necessária”, alerta Andrea.
A cabeça do bebê é muito grande”
A desproporção céfalo-pélvica é um motivo real para escolher pela cesariana, mas o problema está no diagnóstico. “Muitas vezes usa-se esta desculpa antes do trabalho de parto, mas só dá para saber que existe a desproporção durante o trabalho de parto”, conta Melania. O problema acontece quando a cabeça do bebê não consegue passar pela parte mais estreita da bacia da mãe, mesmo quando a dilatação do colo uterino já é total. Por isso, é recomendável que mesmo quem opta pelo parto normal tenha uma estrutura de hospitalar à disposição.
O bebê é muito grande”
A ultrassonografia não é precisa para determinar o peso do bebê. Mesmo assim, bebês com mais de 4 kg ainda podem nascer de parto normal. “Desde que a mãe não tenha uma diabetes descompensada, isso não é problema. O bebê geralmente tem o tamanho que passaria pela pelve”, conta Andrea.
Você já fez uma cesárea anteriormente”
Muitas mulheres ficam surpresas e não acreditam que, mesmo depois de terem passado por uma cesárea, podem ter o segundo filho de parto normal. “Com até duas cesáreas anteriores, os riscos reais em trabalho de parto natural (sem indução farmacológica) é de cerca de 0,5%. Já com três cesáreas anteriores, pode-se haver até 5% de riscos de ruptura uterina e esse número para a medicina é considerado um valor alto”, descreve Mariana.
Você não tem dilatação”
Antes do trabalho de parto, é normal não haver dilatação. Em geral, o colo só se dilata significativamente durante o processo. O que caracteriza o trabalho de parto são as contrações regulares a cada três minutos, com duração de em média três minutos. Antes disso, não há razão para esperar uma dilatação.
Você está constipada”“A constipação intestinal não exerce nenhuma influência sobre o parto”, garante Andrea. Nesses casos, complicações da cesárea podem agravar o quadro, já que o intestino pode ficar paralisado por algum tempo.
"O período expulsivo está demorando muito"O período expulsivo é a segunda fase do parto natural. Ele vai da hora em que a dilatação está completa até o momento em que o bebê efetivamente nasce. Os limites toleráveis para a duração do período expulsivo são muito variáveis. “Há quem indique cesárea depois de 30 ou 40 minutos de período expulsivo. Mas, com analgesia, o ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) considera segura uma duração de até 3 horas. Sem analgesia, 2 horas”, explica Melania. Antes disso, outras medidas podem ser tomadas, como a prescrição de ocitocina (hormônio que acelera as contrações), vácuo-extração ou fórceps. “Mas eu diria que só chegar a período expulsivo hoje no Brasil é uma vitória. A maioria das cesáreas são eletivas, realizadas antes do trabalho de parto”, lamenta Melania. E, consequentemente, antes de ser possível avaliar a real necessidade da intervenção cirúrgica.
Quando a cesárea necessária:
Existem, sim, muitos casos em que ela pode salvar a vida da mãe e do feto. Mas a maioria das justificativas aparecem só durante o trabalho de parto. E mesmo as cesáreas eletivas – ou seja, marcadas – podem esperar este momento para ter certeza que o bebê está pronto para vir ao mundo. Veja alguns motivos que podem levar à cesariana e entenda porque, nestes casos, a intervenção cirúrgica é melhor:
- Estado Fetal Intranquilizador (sofrimento fetal): quando o bebê não está bem e o nascimento precisa ocorrer prontamente – e a cesárea é a via de parto mais rápida.
- Apresentação córmica: quando o bebê está atravessado no momento do trabalho de parto.
- Hemorragias maternas no final da gravidez: podem ocorrer por descolamento da placenta (quando a placenta descola antes de o bebê nascer) ou placenta prévia (quando a placenta recobre o colo do útero). As duas pedem uma cesárea. Mas sangramentos pequenos podem acontecer também pela dilatação do colo do útero e, neste caso, não há necessidade de cirurgia.
- Mãe portadora do HIV: pesquisadores do International HIV Group analisaram diversos estudos e concluíram que as chances de transmissão do vírus da mãe para o bebê diminui em 50% se feita a cesariana programada. ( Estudos também mostram que a gestante que faz o tratamento corretamente na gravidez pode ter um parto normal,pois o risco de contaminação é próximo a 0%).
- Herpes genital com lesão ativa: há maior chance de o bebê se infectar durante o parto normal do que na cesariana eletiva.
- Prolapso de cordão: o cordão sai antes do bebê. O problema é que quando o bebê passa pelo canal, quando feito o parto normal, provoca uma pressão no cordão, impedindo a passagem de sangue para a criança.

Espero que gostem do texto e aproveitem bastante essas informações. 
Mil beijos



Doula Pati Fróes
Carinho, apoio e cuidado no momento que a mulher mais precisa

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Plano de parto

 O plano de parto é usado para revelar as preferências dos pais em relação a itens relacionados com o parto e com o tratamento oferecido ao bebê após o nascimento, mas sem comprometer a qualidade da assistência recebida pela parturiente e seu filho.
 Serve também como um exercício de conhecimento e reflexão sobre todas as opções que você tem em relação ao trabalho de parto e pós parto. Entendendo melhor o que você quer, você poderá expor ao seu obstetra e discutir com ele exatamente o que você quer.
 Os brasileiros estão percebendo que a gestante/parturiente precisa recuperar o controle de um momento que é dela e de seu bebê, o parto.Eventos artificiais foram sendo introduzidos com o passar dos anos, e transformaram, o que antes era fisiológico em um doloroso e invasivo  procedimento médico.
 Abaixo se gue uma lista de procedimentos que acontecem no atendimento para você se inteirar, todas explicadas com base em evidências científicas.


DURANTE O TRABALHO DE PARTO
Você Quer?
Explicação
1) Presença de um acompanhante de sua escolha durante todo o parto, da admissão ao nascimento.
Elimina o estresse da separação. Seu parceiro pode provê-la com suporte emocional durante o trabalho de parto e durante todos os procedimentos necessários. A presença do pai propicia a formação dos laços familiares com o novo membro que vai nascer. É direito garantido por lei federal.
2) Presença de outras pessoas da família ou amigos durante o trabalho de parto e parto. A presença de outras pessoas da família ou amigos pode significar mais apoio para você e seu parceiro. Não há aumento na incidência de infecções, desde que essas pessoas não apresentem sinais de doença (por exemplo, coriza ou diarréia)
3) Lavagem Intestinal (Enema, Fleet-Enema, Enteroclisma). A lavagem intestinal é desconfortável e desnecessária se você teve funcionamento normal do intestino nas últimas 24h. No entanto, se você estiver constipada, poderá a qualquer momento solicitar uma aplicação.
4) Liberdade para caminhar. Caminhar estimula o útero a funcionar eficientemente. Os trabalhos de parto que incluem livre caminhar são mais curtos e menos propensos a receber medicamentos analgésicos.
5) Liberdade para mudar de posição. Sentar, deitar de lado, ajoelhar, acocorar, cada posição pode funcionar melhor ou ser mais confortável em diferentes momentos do trabalho de parto.
6) Uso da água no trabalho de parto. Passar parte(s) do trabalho de parto sob o chuveiro ou imersa numa banheira diminui a necessidade de medicamentos para dor.
7) Bebidas e alimentos com alto teor de carboidratos e pouca gordura à vontade. Alimentos ricos em carboidratos e pobres em gordura permitem digestão rápida e suprimento energético necessário durante o trabalho de parto. Líquidos previnem a desidratação.
8) Água e bebidas leves. Você pode ficar com a sensação de boca seca por causa das técnicas de respiração.
9) Objetos pessoais (camisola pessoal, música, flores). Objetos familiares podem melhorar a experiência do parto ao permitir um melhor relaxamento e mais conforto.
10) Tricotomia (raspagem dos pelos pubianos) apenas se desejado. A raspagem dos pelos não diminui a incidência de infecções e o crescimento no período de pós-parto pode ser bastante desconfortável.
11) Infusão intravenosa apenas se houver indicação médica. A infusão intravenosa restringe a mobilidade e interfere no relaxamento. A ingestão de líquidos leves no trabalho de parto reduz a chance de desidratação. As hemorragias em partos espontâneos e não medicamentosos são muito raras para justificar o uso de infusão preventiva.
12) Monitoramento fetal eletrônico apenas se houver indicação médica. Em parturientes de baixo risco, a auscultação intermitente dos batimentos cardíacos fetais por uma enfermeira ou parteira treinada demonstrou ser tão efetivo quanto o uso do monitoramento fetal eletrônico. Além disso, o aparelho restringe o movimento, podendo ser também bastante incômodo. Geralmente as mulheres são instruídas a deitar de costas, posição que pode ser muito desconfortável e ter ação negativa sobre o trabalho de parto e o bebê. O uso intermitente do monitor pode ser uma alternativa.
13) Rompimento espontâneo da bolsa das águas. O líquido amniótico contido na bolsa tem um efeito de proteção, equalizando a pressão sobre o bebê, o que resulta em menos pressão na cabeça. O rompimento artificial das membranas aumenta as chances de infecção e cria um limite de tempo para o parto, além de resultar em contrações geralmente mais dolorosas.
14) Medicação para alívio da dor administrada apenas quando solicitado por você e com informações completas sobre possíveis efeitos sobre você, o bebê e o trabalho de parto. Todo e qualquer medicamento tem um efeito potencial que pode afetar você, seu bebê e seu trabalho de parto. Saber de antemão os benefícios e riscos dos medicamentos usados pelo médico permitem que você faça escolhas conscientes.
15) Presença de acompanhante de parto profissional para suporte contínuo (massagista, fisioterapeuta, doula, enfermeira ou obstetriz sem vínculo com o hospital). Um profissional experiente, que tenha um comprometimento com você em relação ao tipo de parto que você deseja, pode oferecer importantes informações adicionais. A presença de uma doula pode reduzir suas chances de ter uma cesárea em até 50%, tornar o trabalho de parto mais curto, fazer o uso de ocitocina menos necessário, reduzir a necessidade de anestesia e de uso do forceps. Uma massagista ou terapeuta corporal pode utilizar técnicas de alívio dos desconfortos do parto. 
16) Ocitocina ou drogas de efeito similar para indução ou aceleração do trabalho de parto apenas sob necessidade médica. As contrações induzidas por ocitocina são mais difíceis de serem suportadas do que as contrações naturais, tanto para você como para o bebê. Os riscos do parto induzido incluem restrição do suprimento de oxigênio do bebê e parto prematuro. As complicações decorrentes do uso de ocitocina podem aumentar as chances de uma cesárea ser necessária.
17) Uso de suíte de parto ou a mesma sala/quarto para o trabalho de parto e parto. Isso evita que você seja transferida às pressas, geralmente deitada de costas numa maca, da sala de pré-parto para a sala de parto, durante a fase de expulsão. Muitos hospitais já oferecem as “suítes de parto” ou “LDR (Labor and Delivery Room)” onde a parturiente fica durante todo o trabalho de parto, parto e recuperação. O uso do apartamento fora do centro obstétrico para o parto normal de baixo risco, sem intervenções, também é uma excelente opção.
DURANTE O PARTO EM SI
Você Quer?
Explicação
1) Posição para expulsão confortável (para você) e eficiente. A posição semi-reclinada (quase sentada), deitada sobre o lado esquerdo, de joelhos ou cócoras pode ser bem mais confortável do que ficar deitada de costas. Deitar de costas comprime o cóccix, diminui o diâmetro da pélvis, pode ser desconfortável e faz o útero pesar sobre artérias importantes, impedindo um bom fluxo sanguíneo. Acocorar-se faz diminuir o comprimento do canal de parto, aumenta a abertura da pélvis, e faz as contrações serem mais eficientes, já que o trabalho está sendo auxiliado pela gravidade.
2) Não usar estribos ou perneiras. A posição de litotomia, na qual você se deita de costas e coloca os pés nos estribos ou perneiras, faz com que o parto seja um esforço contra a gravidade e força você a empurrar o bebê para cima. Estribos abertos, embora dêem ao médico uma excelente visão do campo de trabalho, fazem o períneo esticar demasiadamente, aumentando as chances de laceração.
3) Episiotomia apenas se for necessário. Ao permitir que a cabeça do bebê emerja vagarosamente, apenas sob as forças uterinas, o períneo tem maiores chances de distensão, o que minimiza as chances de lacerações. A recuperação da episiotomia pode ser bastante desconfortável. A cicatriz muscular pode afetar posteriormente o prazer sexual. A episiotomia diminui o período expulsivo, podendo ser necessária em caso de sofrimento fetal ou se for preciso o uso do fórceps. Muitos profissionais de saúde fazem a episiotomia rotineiramente, independente de ser necessária, o que não tem qualquer justificativa aceitável.
4) Anestesia peridural ou raquidiana apenas se for necessária alguma intervenção cirúrgica ou a pedido materno. A anestesia é desnecessária na maioria dos partos sem complicações, sem o uso de ocitocina e com liberdade de posição. No caso de uma episiotomia, um anestésico local pode ser aplicado na hora. 
5) Nascimento suave (Parto Leboyer). O nascimento Leboyer é uma atitude, mais que um procedimento. Diminui o trauma sensorial e físico do bebê na hora no nascimento.
6) Clampeamento do cordão apenas depois que parar de pulsar. O clampeamento tardio permite que o bebê continue recebendo oxigênio pelo cordão umbilical enquanto o sistema respiratório começa a funcionar. Diminui o risco de anemia em bebês até 6 meses.
7) O Pai corta o cordão umbilical. Aumenta a participação do pai no nascimento.
8) Bebê colocado imediatamente no seu colo (ou sobre a barriga ou nos seus braços). O contato imediato pele-a-pele é benéfico. Se mãe e bebê forem cobertos com uma manta, a temperatura do bebê é mantida.
9) Bebê amamentado assim que possível. A sucção do bebê estimula a produção materna de ocitocina, que induz o delivramento da placenta e reduz o sangramento pós-parto. O reflexo de sucção do bebê é mais forte nas primeiras horas após o nascimento. O colostro age como um laxativo, limpando o trato intestinal do bebê do muco e do mecônio.
10) Antibiótico oftálmico ou nitrato de prata apenas depois do período de formação do vínculo (primeiras horas após o parto). Esses produtos interferem na visão do bebê, que é muito importante durante o período de vínculo, logo após o parto. Caso a mãe não seja portadora de gonorréia, o nitrato de prata não tem qualquer utilidade e pode provocar conjuntivite química no recém-nascido.
11) Placenta expulsa espontaneamente da parede do útero. Tração ou massagem pode fazer com que parte do tecido placentário permaneça no útero, podendo provocar infecção e hemorragia pós-parto.
12) Vínculo precoce mãe-bebê. As primeiras horas após o parto são muito importantes no desenvolvimento da ligação afetiva entre os pais e o bebê. Eles não deveriam ser separados em nenhum momento.
13) Tirar fotografias ou filmar durante o parto. São formas maravilhosas de se lembrar desses momentos incríveis, desde que não atrapalhem a concentração da mãe ou impeçam o pai de participar ativamente no auxílio à sua companheira. Algumas mulheres sentem-se constrangidas, discuta a questão antes.
PÓS-PARTO
Você Quer?
Explicação
1) Amamentar. Em termos nutricionais, o seu leite é o alimento perfeito para o seu bebê. A amamentação é uma experiência emocionalmente gratificante tanto para o bebê como para a mãe e é econômica. Ajuda o útero a contrair e voltar mais rapidamente ao tamanho normal.
2) Não deverá haver separação entre mãe e bebê a menos que haja indicação médica. O contato contínuo mãe-bebê favorece a formação do vínculo entre eles. Aumenta as oportunidades para a equipe de enfermagem oferecer instruções sobre os cuidados com o recém-nascido. Os primeiros banhos podem ser dados no quarto da mãe.
3) Não oferecer ao bebê água, leite em pó (fórmulas), chupeta ou bicos. O oferecimento de bicos e mamadeiras ao bebê pode provocar confusão, já que exigem uma ação diferente da língua, comparada à da amamentação natural. Se o bebê é alimentado no berçário entre as mamadas, ele não vai sugar adequadamente para o estímulo mamário da produção de leite.
4) Alojamento conjunto 24 horas. Permite contato íntimo entre pais e bebê, favorecendo a formação do vínculo. Você poderá amamentar sob livre demanda e aprender os primeiros cuidados com seu bebê ainda sob a supervisão das enfermeiras.
5) Pai deverá ficar no apartamento com mãe e bebê até a alta. Reforça os laços familiares. Permite que o pai participe dos cuidados com o bebê. A maioria dos hospitais particulares oferece a possibilidade do pai ficar alojado com a mãe no apartamento privado.
6) Visitação à vontade dos irmãos mais velhos. Ajuda as crianças mais velhas a perceberem que você está bem. Encoraja a aceitação do novo bebê pelos irmãos.
EM CASO DE CESÁREA
Você Quer?
Explicação
1) Escolha de médico, anestesia e hospital “amigos da mulher”, que permitam uma cesárea centrada na família. Uma seleção cuidadosa da equipe poderá garantir a participação da família, mesmo no caso da cesárea, tornando o processo mais humanizado.
2) Participação de um acompanhante de sua escolha durante a cesárea. A presença de uma pessoa querida poderá prover segurança emocional durante esse processo tão delicado, além de estar garantido por lei federal.
3) Permitir o início do trabalho de parto antes de efetuar a cesárea. O trabalho de parto é a indicação de que o bebê está pronto para nascer. Esperando pelo início do parto diminuem substancialmente as chances de seu bebê nascer prematuro, já que nenhum outro exame pode garantir que os pulmões do bebê estejam maduros.
4) Ser informada de cada procedimento associado à cesárea (testes, tricotomia, sonda urinária, etc). Saber passo a passo o que está acontecendo, permite que você fique mais relaxada e mais participante do processo.
5) Tricotomia parcial (do abdome até a altura do osso púbico). Diminui o desconforto quando os pelos começam a crescer novamente, sem aumento nas chances de infecção.
6) Uso de anestesia peridural/raquidiana (não utilização da anestesia geral). Permite que você esteja acordada no nascimento do bebê e facilita a interação. Exceto pelas emergências, geralmente há tempo suficiente para se aplicar uma anestesia regional.
7) Rebaixamento do protetor ou uso de espelho na hora do nascimento. Permite que mãe e pai assistam ao nascimento do bebê e sintam-se mais integrados à experiência de nascimento.
8) Amamentação tão logo seja possível, mesmo na mesa de cirurgia ou na sala de recuperação. Isso dá à mãe e ao bebê as mesmas vantagens do aleitamento precoce obtido nos partos vaginais.
9) Vínculo precoce mãe-bebê. Segurar e tocar o bebê pode reduzir a ansiedade dos pais, além de trazer os benefícios do vínculo precoce.
10) Sem o uso de sedativos pós-operatórios. Sedativos podem provocar amnésia materna e atrapalham a interação mãe-bebê. Ao invés de sedativos, prefira usar técnicas de relaxamento. Lembre o anestesista.
11) Alojamento conjunto com flexibilidade. Permite que você cuide do bebê de acordo com suas possibilidades. Melhora as condições para o estabelecimento dos laços mãe-bebê e da amamentação. Além disso o pai pode participar dos cuidados nos primeiros dias. No entanto um berçário deveria estar disponível para que a mãe possa se recuperar da cesariana em melhores condições.
Tabela retirada do site amigas do parto.

Agora um exemplo de um plano de parto feito por uma americana e sua médica nos anos 80.


Evolução e Parto: Sim Sob Condição Não
1. Uso da mesma sala para a evolução, parto e a recuperação.








2. Liberdade de movimento para a mãe, incluindo escolha de posição para o trabalho e o nascimento.








3. As seguintes pessoas presentes ao trabalho de parto e nasceimento.
Companheiro:
Doula:









4. Acesso a gelo e líquidos(sucos), bolsa de gelo, saco de água quente e alimentos se desejado.








5. Não fazer a tricotomia(Raspagem dos pelos pubianos)








6. Não fazer o enema(lavagem intestinal)








7. Não usar monitor fetal desnecessáriamente.








8. Não usar episiotomia(corte no períneo) de rotina.








9. Interferência no trabalho de parto, i.e., uso de sedativos, tranquilizantes, analgésicos ou anestésicos a menos que solicitado ou se necessário.








10.Sem indução de trabalho de parto.








11. Sem ruptura de membrana (ruptura artificial da bolsa d'água).








12. Evitar puxos prolongados ou intensos (sem limites para a duração do trabalho).








13. Não usar perneiras.








14. Sem estimulação artificial(inclusive massagem abdominal profunda) para expelir a placenta.








15. Itens pessoais na sala de trabalho ( fotos, aparelho de som, etc.).








Família e Bebê Sim Sob Condição Não
1. O bebê não será separado de mãe e pai: alojamento conjunto imediato.








2. Liberdade para amamentar o bebê na mesa/cadeira de parto.








3. Aquecimento com temperatura corporal, não berço aquecido.








4. Sem gotas nitrato de prata nos olhos para não interferir no estabelecimento dos laços.








5. Sem vitamina K.








6. Banho opcional somente para relaxar, preservando vernix e óleos naturais.








7.Não cortar o cordão até a pulsação parar completamente.








8. Sem aspiração com sonda naso-gástrica, se não for necessário. Usar “pêra” para a sucção de mucos na boca e nariz.








9. Manter atmosfera quieta e calma durante e após nascimento.








10. Pouca luz.








11. Sala não refrigerada.








12. Alojamento conjunto.








13. Os pais se responsabilizarão pelas primeiras observações do bebê.








14. Apenas leite de peito ou colostro para o bebê (não dar glicose) nem nenhum outro leite, bem como nenhum outro bico.








15. Liberdade para ir para casa logo que desejado, se as condições permitirem.







Espero que aproveitem bastante essas informações.
Mil beijos


Doula Pati Fróes
Carinho, apoio e cuidado no momento que a mulher mais precisa

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A dor é relativa

O outro texto que postei sobre dor foi bastante visitado então resolvi postar esse aqui também que é ótimo. Será que um dia a visão que as pessoas tem da dor do parto vai ser mudada? Espero que esses textos ajudem pelo menos um pouquinho. Aproveitem bastante.

O porquê da dor
A gente pode dissecar a questão da dor (do parto) de infinitos modos, pois não se trata de uma grandeza absoluta, não mede xis unidades de qualquer coisa. Ela é relativa, e a múltiplos fatores combinados entre si, físicos e psíquicos, conscientes e inconscientes, e a combinação de todos eles produz a percepção psico-física dentro de limiares individuais.
Na nossa cultura, o parto é na grande maior parte das vezes vivenciado e relatado como um evento em que está presente uma dor que beira o insuportável. Será necessário que seja assim? Vejamos...
Primeiramente há o aspecto evolutivo. O parto humano é o que apresenta a relação céfalo- pélvica mais estreita da natureza. Um dia resolvemos descer das árvores e caminhar sobre duas pernas. Outro dia resolvemos engrossar nossa camada de neo-córtex cerebral: resultamos bípedes e cabeçudos, porque somos metidos a não ser bestas. E na hora de parir nossos filhotes, os processos musculares de contração das paredes e dilatação do colo uterino, mais os movimentos do bebê empurrando-se para fora ocorrem sem folga de espaço, e as sensações fortes* que esses processos produzem podem ser interpretados como “dor”, e potencializados em sensações ainda mais dolorosas se houver medo, insegurança, ou ação de hormônios artificiais como se costuma aplicar através de soro às mulheres em trabalho de parto com o objetivo de acelerar o processo, atingindo níveis de fato insuportáveis. Em "Correntes da Vida", o psicoterapeuta inglês David Boadella** descreve o comportamento uterino em trabalho de parto quando a mãe sente qualquer tipo de medo – consciente ou inconsciente:
“(...) o útero tenta fazer duas coisas antagônicas ao mesmo tempo: tenta abrir-se, sob a influência do relógio biológico que atua através do hormônio que prepara o caminho para o bebê nascer; e, simultaneamente, tenta manter-se fechado, sob a influência dos nervos simpáticos, trazidos à ação pelo medo. É como se alguém quisesse dobrar e esticar o braço ao mesmo tempo; o braço teria um espasmo, que causaria dor. isso é exatamente o que acontece com o útero de uma mãe que é incapaz de relaxar e que está condicionada a sentir dor.”
Mas por que a mulher está condicionada a sentir dor? Um dos motivos é o arquétipo do parto doloroso em conseqüência do pecado original, como reza nossa cultura judaico-cristã. Ao expulsar Adão e Eva do Paraíso por terem provado do fruto do Conhecimento, o Criador lhes diz: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos” (Gênesis 3:16). Ora, como não sentir dor se o próprio Deus a determina? O arquétipo do parto como sofrimento foi literalmente in-corporado baixo a quase 6.000 anos de crença.
Outro aspecto importante, é o caráter fisiológico do parto. Esta noção não faz parte do senso comum: de que o ato de parir (assim como gestar e amamentar) é tão fisiológico e saudável quanto respirar, digerir, filtrar o sangue, pensar, absorver nutrientes, excretar, chorar, ouvir, enxergar, fazer sexo, fazer amor. Mas na nossa cultura, uma mulher grávida é vista como alguém sob risco potencial e iminente, o parto é visto como um evento necessariamente hospitalar e na maioria das vezes, cirúrgico. Ao transformar um evento potencialmente saudável em necessariamente patológico, a dor encontra campo fértil para ser identificada como tal. Está aí um dos fatores que levam tantas mulheres a sentir pavor pelo parto normal.
A dor tida por alucinante pode ser percebida como lidável quando a mulher, em primeiro lugar subtrai-lhe a parcela da dor propriamente dita, advinda do medo e da insegurança; o restante das sensações, ela pode converter em sensações lidáveis ao aceitar a natureza do seu corpo, aceitar as sensações do trabalho de parto não como alguma coisa a vencer, contra as quais se deve lutar - porque elas não resultam de uma patologia, não sinalizam alguma coisa que está errada, como uma fratura ou queimadura, por exemplo. Não. Essa sensação é uma aliada que sinaliza o processo fisiológico do parto, levando a mulher a fazer força, ou a se contorcer, a gemer, a acocorar-se ou a procurar a banheira, e entre as contrações as sensações atenuam, como ondas***, e você pode relaxar. As sensações intensas levam ao transe, e esse transe tem que ser aproveitado, ele faz parte. Você não precisa de anestésicos, ordem pra fazer força, fórceps. Você precisa apenas de liberdade para vivenciar seu parto.
O parto é você, é o seu corpo em plena atividade, e você não deveria deixar esta parte de você ser subtraída por uma conveniência que vem de fora. Existem séculos de uma cultura desfeminilizante costurando essa rede em que se cai tão facilmente, como eu mesma caí nos meus partos. Não é a mulher que precisa da anestesia, são os outros que precisam do conforto de uma mulher parindo quietinha.
E há outro aspecto que eu acho muito interessante que é a coisa do ritual de passagem. Nós cultivamos algumas manifestações externas de rituais, como casamentos, batizados, bar-mitzvahs, aniversários, festas da primavera, e essas festas refletem a nossa necessidade humana de marcar as passagens das fases, de criança inimputável para o adulto responsável, da vida individual para a vida em família, de um período de dureza para outro de fartura, enfim, quando passamos de uma fase para outra sem essa marca fica faltando alguma coisa. Tive um tio que foi tratado com hormônios nos anos 40 para acelerar seu crescimento. Na verdade ele foi cobaia das primeiras experimentações com hormônios no Brasil. De um dia para o outro ganhou pelos pelo corpo, engrossou a voz, a adolescência que deveria prepará-lo vagarosamente para a idade adulta veio num turbilhão que ele não deu conta e ninguém à volta dele compreendeu. Ele enlouqueceu.
Assim é com o parto. Quando se tenta ao máximo passar por ele como se nada tivesse acontecido - e o ápice disso é a cesárea eletiva, está-se pulando um ritual fundamental para o início da maternidade. E o efeito cascata começa: dificuldade de estabelecer vínculo com o bebê, depressão pós-parto, "falta" de leite, intolerância ao comportamento do bebê. O parto normal cheio de intervenções, do qual se diz "ah, foi uma beleza, não senti na-da!!! fiquei ali, conversando, e em xis (poucas) horas o bebê nasceu!!" não é muito menos maquiagem da passagem. Sim, "de repente" o bebê estava ali. E ela não precisou fazer nada. Inicia-se a maternidade com a sensação de que "não é preciso fazer nada" para ser mãe. E começa a transferência de responsabilidade... impulsionada pela sensação inconsciente de que a maternidade moderna NÃO PODE ser trabalhosa. E esse caráter trabalhoso que a maternidade efetivamente tem, não é, como nossa sociedade acredita, um sofrimento, um castigo do qual devemos nos livrar. Ao contrário, ela contém o extremo prazer que sentem as pessoas que superam desafios, convivendo com as mudanças no corpo e na vida pelo prazer que isso traz, em oposição à compulsão de querer lutar contra as mudanças irreversíveis promovidas pela chegada dos filhos.
O processo do parto vem sendo aprimorado há milhões de anos (ou milhares, depende do critério), e a humanidade definitivamente não aperfeiçoou este processo agregando-lhe tecnologia, apenas o corrompeu. Anestesia, ocitocina na veia, posição horizontal, raspagens, submissão a alguém como dono do parto, kristeller, amniotomia, episiotomia, tudo isso num trabalho de parto que está transcorrendo sem intercorrências, não é evolução: é perversão. Das grossas. Você e seu bebê não precisam de mais nada além dos seus corpos com seus hormônios para permitir o nascimento.
Precisamos desconstruir o conceito de parto doloroso, e compreender e desejar e conquistar o parto prazeroso, não importa quão trabalhoso ele possa ser. Não se deixem levar pela inércia do sistema obstétrico vigente, que inadvertidamente vampiriza a força, a beleza e a vida que mãe e bebê protagonizam no ato de parir e nascer.
  • definição da Éllade França
    ** contribuição da Anita Cione
    *** definição de Michel Odent
  • Roselene Nogueira
    Mãe de Heloisa, Beatriz e Isabela (3 partos normais hospitalares) e arquiteta   

    Fonte: www.partodoprincipio.com.br

    Mil beijos

    Doula Pati Fróes
    Carinho, apoio e cuidado no momento que a mulher mais precisa

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Explicando a cesárea eletiva

As pessoas hoje em dia pensam na cesárea como se fosse uma opção de parto, o que não tem o menor sentido. A cesárea é muito bem vinda sim, mas quando tem necessidades reais. Fazer uma cesárea sem necessidade é como alguém que não tem problemas cardíacos operar o coração. Espero que aproveitem bastante essas informações. O texto é grande, mas é muito bom.
"Escolhendo a Cesárea
"Ao optar por uma cesárea agendada, você e seu médico estabelecem uma data em que entrarão no hospital de maneira razoavelmente tranqüila e despreocupada, e ele extrairá seu bebê através de um pequeno corte acima dos seus pêlos pubianos. Existem inúmeras razões para se agendar uma cesariana – outras mulheres escolhem a cesariana porque querem manter o tônus vaginal de uma adolescente, e seus obstetras encontram uma explicação médica que convencerá a seguradora."
— VIovine, The girlfriends’ guide to pregnancy (1995)
Esta declaração de um popular livro norte-americano ilustra o nível de tolerância da sociedade para com a escolha de cesariana pela mulher e para com a fraude cometida pelos médicos contra a seguradora. Esse tipo declaração é reforçado quando o novo presidente da Academia Americana de Obstetrícia e Ginecologia ("American College of Obstetricians and Gynecologists") refere-se a este procedimento cirúrgico abdominal de grande porte como "aprimoramento da vida".1 A cesariana tem salvado as vidas de muitas mulheres e bebês em todo o mundo. Então, por que não permitir à mulher a escolha da cesárea? Infelizmente, a opção de escolher (ou exigir) não é tão simples. Cesáreas, mesmo quando eletivas, implicam sérios riscos para a mãe e o bebê.
Parece haver um movimento nos círculos médicos para promover o direito da mulher de escolher a cesariana. Em 1997, um jornal de obstetrícia publicou uma pesquisa com médicas obstetras, na qual 31% destas mulheres declararam que, se tivessem uma gravidez única, sem complicações e a termo, optariam pela cesariana.2 O BMJ3 e o NEJ Med4 se juntaram a esse movimento. Em 1999, no BMJ, uma professora de Letras feminista lamentou que "preconceitos médicos e sociais contrários à libertação da mulher de sua condenação bíblica ao parto doloroso ainda estão entre nós", e um defensor dos consumidores declarou, "não acredito que alguém tenha o direito de exigir que a mulher tenha um parto vaginal".5 Existe uma relação interessante entre a promoção da escolha por parte da mulher e o grau em que o procedimento é favorável aos médicos. Tentar um parto normal após uma cesárea (PNAC) é mais seguro que fazer outra cesárea, mas não existem artigos em jornais médicos promovendo o direito da mulher de escolher um PNAC. A cesariana é favorável aos médicos; o PNAC não.
Riscos
Por trás das tentativas de se justificar a escolha das mulheres pela cesárea está a afirmação: "a cesariana nunca foi tão segura". Existe uma gradação dos riscos nas emergências obstétricas, que vai desde a cesárea planejada para evitar complicações, quer com a mãe, quer com o feto, até a cesárea escolhida pela mulher sem indicações médicas. A maioria dos dados a respeito dos riscos apenas diferencia a cesariana "de emergência" da "eletiva", mas, considerando-se que muitos dos riscos existem independentemente do motivo pelo qual a cesárea é feita, a cesárea eletiva, como uma cirurgia abdominal de grande porte, ainda apresenta riscos maiores.
A resposta para a pergunta "Qual é o nível de segurança da cesariana?" depende de quem está respondendo. Se a cesárea é feita, a mulher e seu bebê correm riscos, enquanto que se a ela não é feita, o médico corre riscos. Isto ajuda a explicar porque riscos comprovados para a mulher e seu bebê não são amplamente discutidos e normalmente não são apresentados pelos médicos.
Os dados mais confiáveis sobre mortalidade materna vêm do "Inquérito Confidencial do Reino Unido sobre Morte Materna" ("UK Confidential Enquiries into Maternal Deaths"). Embora possa ter sido uma política obstétrica omitir o capítulo habitual sobre mortalidade materna relacionada à cesariana, dois cientistas calcularam essa taxa a partir de dados do relatório.6 Uma cesárea eletiva sem característica de emergência apresentou um risco 2,84 vezes maior de morte materna do que um parto vaginal nas mesmas condições. Dado que o controle aleatório desse tipo de pesquisa não é eticamente possível, os dados do Reino Unido acerca de 153.929 procedimentos eletivos fornecem fortes evidências do aumento do risco de morte materna com a cesárea por escolha da mulher.
Outros riscos incluem a morbidade associada a qualquer procedimento cirúrgico abdominal de grande porte (acidentes anestésicos, danos aos vasos sanguíneos, prolongamento acidental da incisão uterina, danos à bexiga ou a outros orgãos7). 20% das mulheres desenvolvem febre após a cesariana, na maioria das vezes devido a infecções iatrogênicas.7 Existem também os riscos relacionados à existência de uma cicatriz no útero, incluindo diminuição da fertilidade, aborto, gravidez ectópica, placenta abrupta e placenta prévia.7-9 O uso indiscriminado da condenada droga misoprostol para indução do trabalho de parto criou um novo risco. Mulheres que tentam um parto vaginal após cesárea a quem se administra misoprostol apresentam uma taxa de ruptura uterina de 5,6%, comparada com uma taxa de ruptura de 0,2% em mulheres na mesma situação e que não são submetidas à droga.10 Todos estes riscos afetam gravidezes subseqüentes, mesmo que a cesárea não tenha sido emergencial.
Numa cesárea de emergência em que o bebê apresenta algum problema durante o trabalho de parto, os riscos da cirurgia para o bebê são provavelmente superados pelos riscos de não realizá-la. Nos casos em que o bebê não está com problemas, ainda existem riscos para ele, o que significa que uma mulher que escolhe a cesariana submete seu bebê a um perigo desnecessário. O fato de algumas mulheres, ainda assim, optarem pela cesariana é um forte indício de que elas não foram advertidas disso.
O primeiro risco para o bebê é a chance de 1,9% de o bisturi do cirurgião acidentalmente lacerar o feto (6% nas apresentações não-vértice, ou não-cefálicas).11 Os obstetras podem estar menos cientes deste risco – em um estudo, apenas uma das 17 lacerações fetais foi registrada pelo médico.11 Um risco muito mais sério é o de complicações respiratórias. O procedimento da cesariana por si só é um forte fator de risco para a síndrome da angústia respiratória em bebês prematuros, e para outras formas de disfunções respiratórias em bebês a termo.7 O risco de o bebê apresentar a síndrome da angústia respiratória é significativamente reduzido quando se permite à mulher entrar em trabalho de parto antes da cesárea.
Outro perigo é a prematuridade iatrogênica. Mesmo com repetidas ultrassonografias, existem erros de diagnóstico sobre quando realizar a cesariana. Cesáreas eletivas após o início do trabalho de parto reduziriam este risco. Tanto a síndrome da angústia respiratória quanto a prematuridade são causas importantes da morbidade e mortalidade neonatais.
Benefícios
Os benefícios da cesárea dependem do motivo que levou a realizá-la. Quando a cesárea é escolhida pela mulher, a característica da cesárea de emergência de salvar vidas não está presente.
A ausência de dor, como um benefício para a mulher, é uma falsa promessa. A possibilidade de marcar a cesárea antecipadamente realmente oferece conveniências para a mulher e sua família. A promessa de manter "o tônus vaginal de uma adolescente" (freqüentemente anunciada em livros populares e em hospitais latino-americanos) é real, embora provavelmente beneficie mais o parceiro sexual do que a própria mulher. Alega-se que a cesárea provoca menos danos à genitália, mas muitos dos danos apresentados atualmente no parto vaginal são causados pela prática de se apressar um segundo estágio de trabalho de parto descomplicado, pelo uso desnecessário do fórceps ou do vácuo-extrator, e pela episiotomia desnecessária.7,8 Em países como o Brasil, onde os direitos reprodutivos não estão disponíveis em sua totalidade para as mulheres, a cesárea proporciona uma oportunidade para a esterilização sem caracterizar uma contravenção aberta da lei.
Na cesárea por escolha da mulher, não há evidências científicas que sugiram qualquer benefício para o bebê. As mulheres que escolhem um parto "natural" ou domiciliar são criticadas por alguns médicos por serem egoístas, por estarem mais preocupadas com suas próprias necessidades do que com a segurança do bebê, críticas que não são baseadas em evidências. Considerando-se as evidências sobre os riscos e a ausência de benefícios para o bebê quando as mulheres escolhem a cesárea, o rótulo "egoísta" seria mais adequado para as mulheres que fazem essa escolha – não fosse pelo fato de que estaríamos assim culpando as vítimas. Muito freqüentemente a opção da mulher pela cesárea está baseada num medo profundamente enraizado e em falta de autoconfiança, resultantes da atitude daqueles médicos que temem, eles próprios, o parto vaginal e, portanto, alimentam a ansiedade de suas pacientes.
Em contraste, há muitos benefícios para o médico.
Uma razão comumente apresentada para as altas taxas de cesárea é a "obstetrícia defensiva". Numa pesquisa recente, 82% dos médicos utilizaram essa prática para evitar processos por negligência.12 Quando um parto tem resultados negativos, os médicos são processados e criticados por não terem lançado mão de intervenções tais como a cesárea. Os médicos são raramente criticados por intervenções desnecessárias. No entanto, a obstetrícia defensiva viola o princípio fundamental da prática médica: todo e qualquer procedimento adotado pelo o médico deve ser realizado antes de tudo e principalmente para o benefício do paciente. Se um médico faz uma cesárea porque tem medo de ser processado ou porque teme os altos custos do seguro, este médico não está praticando boa medicina.
Obstetras tendem a culpar as mulheres, os advogados e o sistema legal por tantos litígios, ao invés de analisarem o seu próprio papel. Na Irlanda houve um aumento de 450%, entre 1990 e 1998, nas ações por negligência médica, e os casos de obstetrícia e ginecologia representaram quase metade dos processos que resultaram em indenizações.12 A União de Defesa Médica ("Medical Defence Union") propõe um procedimento mais acessível para reclamações, uma solução que pode evitar que as queixas cheguem aos tribunais, mas que não dá conta da insatisfação subjacente das mulheres. Por que há essa insatisfação geral com os serviços das maternidades na Irlanda? Nesse país há pouquíssima escolha em relação a esse tipo de serviço. Quase todos os hospitais praticam um "manejo ativo" altamente estruturado, uma abordagem que teve início em Dublin, na qual "ativo" refere-se à equipe médica, e não à mulher que está parindo, e na qual a escolha é efetivamente eliminada. Outra fonte de insatisfação deriva de uma promessa não cumprida. Para convencer as mulheres a renunciarem ao conforto e segurança de suas casas e irem parir nos hospitais, médicos e hospitais acharam necessário prometer um parto e um bebê perfeitos. No entanto, se você brinca de Deus, você torna-se culpado pelos desastres maternos. Não existe um lugar onde a mortalidade materna ou a mortalidade perinatal sejam nulas. Ao longo da história, as mulheres aceitaram essa dura realidade – até recentemente, quando os médicos começaram a prometer a perfeição. Agora, quando algo dá errado, as mulheres e famílias sentem-se enganadas e buscam respostas, mas são freqüentemente evadidas por médicos e hospitais.
Talvez o litígio seja um mal necessário, fornecendo um cenário onde mulheres e famílias podem tentar encontrar respostas para suas preocupações num fórum público, o qual nem mesmo os médicos podem sempre evadir. O litígio funciona também como um sintoma, nos alertando sobre os sérios problemas subjacentes à assistência ao parto.
De qualquer modo, a obstetrícia defensiva não funciona. Durante os anos em que a obstetrícia defensiva se expandiu, não houve qualquer decréscimo nas ações judiciais.
A cesárea eletiva é conveniente; ela permite aos médicos se aproximarem de uma "obstetrícia diurna". Estudos do Reino Unido e dos EUA mostram não só que os nascimentos acontecem muito mais comumente de segunda a sexta-feira durante o dia, mas também, e mais surpreendentemente, que as cesáreas de emergência são realizadas em dias de semana preferenciais e no horário diurno.7 A cesárea leva 20 minutos, enquanto no parto vaginal o médico tem que permanecer no hospital por 12 horas ou mais. Em sistemas tais como os adotados nos EUA, no Canadá, na Bélgica e no Brasil, onde os obstetras são responsáveis pela atenção materna primária, incluindo as consultas pré-natais de rotina e o atendimento aos partos normais, a conveniência da cesárea é vital para sua prática.
Médicos e hospitais quase sempre são bem melhor remunerados pela cesárea do que pelo parto vaginal. Estudos dos EUA mostram que as candidatas mais prováveis à cesárea são mulheres brancas, casadas, que possuem plano de saúde privado e que dão à luz em hospitais particulares.7 Essas são as mulheres que apresentam os menores riscos de desenvolver complicações que possam exigir uma cesárea – um raro exemplo de mulheres abastadas que recebem uma assistência menos segura do que as mulheres de baixa renda. A OMS afirma: "Nos Estados Unidos o fator lucro explica as taxas de cesariana específicas dos hospitais, que foram altas mesmo para o padrão norte-americano".13
No sistema privado de saúde, a cesárea é um dos procedimentos cirúrgicos de grande porte mais comuns, lotando leitos e salas cirúrgicas e fornecendo uma importante fonte de renda. Os hospitais particulares competem por pacientes e desencorajam partos em ambientes não hospitalares. Interesses comerciais também promovem os partos de "alta tecnologia", que necessitam de equipamentos. As altas taxas de cesárea beneficiam os médicos, os hospitais e a indústria.
O direito à escolha
Uma mulher que consente qualquer procedimento médico deve ter acesso a informações completas e imparciais a respeito do que se sabe sobre as chances do procedimento tornar as coisas melhores (eficácia) e piores (riscos). Enquanto este princípio de escolha informada está ganhando aceitação, ainda há incrédulos, como o médico que, após a leitura de um esboço deste artigo, comentou: "Gostaria de saber se algum médico tem tempo a dispor, ou alguma paciente tem a paciência de ouvir, informações completas e imparciais a respeito do que se sabe".
Os médicos precisam, primeiramente, ter eles mesmos essas informações. Infelizmente, eles tendem a basear seus conhecimentos e práticas em "padrões de prática" estabelecidos por outros médicos – padrões que estão freqüentemente em descompasso com a evidência científica.14
Em um estudo de 1998, 76% dos médicos pesquisados conheciam o conceito de prática baseada em evidências, mas apenas 40% acreditavam que a evidência era muito aplicável em sua própria prática, apenas 27% tinham familiaridade com os métodos de revisão crítica da literatura, e, em face a um problema, a maioria consultaria um colega ao invés das evidências".15
O conhecimento insuficiente dos médicos sobre evidências é potencializado pelo fato de que novas informações sobre eficácia e riscos surgem continuamente. Um alvo em movimento demanda mais leitura.
Informações prontamente disponíveis aos médicos podem ser tendenciosas, produzidas por firmas comerciais com interesses lucrativos ou por organizações profissionais que têm o desejo de promover mais dados sobre procedimentos favoráveis aos médicos. Por exemplo, muitas organizações obstétricas promovem o parto hospitalar, omitindo as evidências sobre a segurança do parto domiciliar planejado. Os médicos também estão se voltando para a internet, onde as salas de bate-papos médicos estão repletas de informações errôneas sobre eficácia e riscos, sem qualquer controle de sua validade.
Alguns acreditam ser a ignorância dos médicos uma forma de negligência16. A menos que os médicos possam fornecer informações corretas, as mulheres não serão capazes de fazer escolhas verdadeiramente conscientes acerca da assistência à gravidez e ao parto.
Uma mulher que escolhe a cesariana como meio de evitar a "condenação bíblica a um parto doloroso" está extremamente mal informada. Ao escolher uma cesariana, ela troca 12 horas de dor de trabalho de parto por severas dores e debilidade pós-operatórias e um período de recuperação mais longo com semanas ou mesmo meses de dor.
Uma mulher liberada esforça-se, com toda a razão, para não ser controlada pelos homens, mas se ela aceita o dominante modelo obstétrico masculino, ela desiste de qualquer chance de controlar o seu próprio corpo e de fazer escolhas verdadeiras. Muito já foi escrito sobre como é libertadora para a mulher a experiência de dar à luz quando é ela quem controla o processo. Mulheres que exigem escolha, mas apenas obtêm informações selecionadas que favorecem os médicos, aliam-se inadvertidamente aos interesses médicos, embora chamem isso de feminismo.
Uma mulher tem o "direito" inalienável de escolher uma cesárea? Já foi claramente estabelecido na lei que um indivíduo tem o direito de recusar tratamento médico, mas isso não significa que o inverso também é verdadeiro – que um indivíduo tem o direito de exigir um tratamento médico que não tenha indicação clínica. Se uma mulher solicita uma cesárea, mas seu pedido é recusado por não haver indicações médicas, é correto dizer que ela será "forçada" a ter um parto vaginal? A gravidez não é uma doença. A maioria das mulheres não precisa de tratamentos médicos ou cirúrgicos durante a gravidez, o parto e o puerpério. O parto vaginal é a conseqüência da gravidez, um estado pelo qual a mulher e o seu parceiro sexual devem responsabilizar-se, e não a profissão médica.
Se um determinado procedimento vai contra os princípios religiosos do clínico, ele tem o direito de recusar executá-lo. Assim, um médico não pode usar a desculpa de que foi a mulher quem escolheu a cesárea, e então "eu sou obrigado a realizá-la". Se a mulher solicita uma cesárea para a qual não exista uma indicação clínica e que, até onde o saber médico vai, traz riscos para a mulher e seu bebê que superam qualquer possível benefício, o médico tem o direito, talvez até o dever, de recusar.
Se um paciente apresenta gripe e exige antibióticos, o clínico tem o direito de negá-los, sob o argumento de que antibióticos não irão ajudar e porque seu uso excessivo levará a uma resistência a esse tipo de medicamento que poderia ameaçar a comunidade como um todo. O uso abusivo de cesáreas eletivas também ameaça a comunidade. Nem mesmo os países mais ricos podem fazer tudo. Escolhas têm que ser feitas sobre que tratamentos médicos e cirúrgicos devem ser financiados. Uma cesárea que é realizada porque a mulher optou por este procedimento requer um cirurgião, possivelmente um segundo médico para assisti-lo, um anestesista, enfermeiros, equipamentos, uma sala cirúrgica, sangue disponível para transfusão e uma internação hospitalar pós-operatória mais longa. Se uma mulher é submetida a uma cesárea eletiva simplesmente porque essa é a sua preferência, haverá menos recursos para o resto do sistema de saúde. No Brasil há hospitais com taxas de cesárea de 100%, distritos sanitários com taxas de 85%, e um Estado inteiro com uma taxa de 47,7% de cesárea17. Isto representa uma enorme evasão dos limitados recursos do país. Para piorar, as taxas de mortalidade materna cresceram nas áreas do Brasil que apresentam essas altas taxas de cesáreas18. A cesárea a pedido é um luxo caro e perigoso.
Outra questão ética é o direito à igualdade de acesso ao sistema de saúde. Em muitos países não há igual acesso para todas as mulheres à assistência materna básica, como a cesárea de emergência. Mas uma questão ética muito diferente é colocada pela pergunta: se mulheres ricas podem escolher a cesárea, todas as mulheres deveriam ter esse direito? Discussões sobre a eqüidade de acesso precisam começar com a seguinte pergunta: acesso a quê? Deveríamos insistir que já que mulheres ricas podem pagar para aumentar cirurgicamente seus seios quando os acham pequenos demais, fundos públicos do sistema de saúde, apesar de limitados em todos os países, deveriam ser usados para permitir a todas as mulheres o aumento cirúrgico dos seios?
À luz dessas questões éticas, o Comitê para Aspectos Éticos da Reprodução Humana e da Saúde da Mulher da FIGO (a organização internacional que abriga as sociedades de obstetrícia nacionais) declara em um relatório de 1999: "Realizar cesariana por motivos não-médicos não é eticamente justificado"19.
Por que há uma promoção da escolha da mulher pela cesárea?
Depois de duas décadas de ascensão das taxas de cesárea em muitos países, esforços para reduzir esta taxa finalmente começaram a surtir efeito. A meta dos EUA de reduzir sua taxa de cesárea de 25% para 15% até este ano não foi totalmente atingida.
Entretanto, observa-se uma corrente contra este esforço para baixar as taxas de cesárea que se manifesta através de um questionamento das taxas de cesárea consideradas ótimas;1,4,5 de advertências de que uma redução desta taxa poderia ser perigosa;4 ou da alegação de que são as mulheres que querem a cesárea.1-5
Não há evidências de que uma taxa de cesárea maior do que 7% salve vidas.8 A taxa ótima mais citada é a de 10–15% da OMS.20 Este percentual foi calculado numa conferência da OMS que contou com 62 participantes de mais de 20 países.7 A partir de uma revisão minuciosa de trabalhos publicados, os participantes ficaram cientes de todos os riscos da cesárea. Eles então estudaram variações nas taxas de cesárea e descobriram que vários países com taxas de mortalidade materna e perinatal muito baixas tinham taxas de cesárea próximas a 10%. Não houve evidências de que taxas de cesárea acima deste nível reduziram as taxas de mortalidade. A recomendação consensual final foi modificada para 10-15% (10% para a população em geral, 15% para a população de alto risco). Esta recomendação não foi nem um pouco arbitrária.
Alguns acreditam que os bebês estão ficando maiores enquanto a abertura pélvica feminina, não. Não há provas de que os bebês estejam ficando maiores. Além disso, na Suécia, na Dinamarca e na Holanda a taxa de cesárea é próxima a 10%, com uma das menores taxas de mortalidade materna e perinatal do mundo – e não há evidências de que as mulheres desses países tenham bebês menores ou de que seus quadris sejam mais largos do que os das mulheres nos Estados Unidos, no Canadá ou no Brasil.
Alega-se também que avanços tecnológicos explicam porque "o nascimento se tornou muito seguro".4 Entretanto, não há provas da existência de uma relação causal entre o resultado do parto e o uso de tecnologia ou o aumento de cesáreas. Nesses últimos 20 anos não houve melhoras significativas nas taxas de paralisia cerebral, de baixo peso ao nascer, de mortalidade materna, ou no componente fetal da mortalidade perinatal nos países industrializados. Um estudo do Centro Nacional de Estatísticas da Saúde ("National Center for Health Statistics") dos Estados Unidos comenta: "As comparações das taxas de mortalidade perinatal com a cesariana e com o parto vaginal operatório não demonstram nenhuma correlação consistente entre países",21 um veredicto também proferido pela Unidade Nacional de Epidemiologia Perinatal de Oxford ("Oxford National Perinatal Epidemiology Unit"), na Inglaterra.22
Uma razão para a promoção de altas taxas de cesáreas é raramente discutida. Quando a assistência materna é caracterizada pela hegemonia médica e as parteiras são marginalizadas, as taxas de cesárea são mais altas – como, por exemplo, na América do Norte e no Brasil urbano. Incumbir um cirurgião obstetra altamente treinado de um parto normal é análogo a contratar um cirurgião pediatra como babá de uma criança saudável de 2 anos. As parteiras utilizam-se de um paradigma diferente ao focar não na potencial anormalidade da gravidez, mas na sua normalidade. Para uma parteira um parto pélvico é uma variação do normal; para um médico é uma condição patológica. As taxas de cesárea são menores quando parteiras em vez de médicos atendem o partoi. A promoção da cesariana faz parte de uma campanha para manter a profissão obstétrica no controle da assistência materna.23 Os médicos tendem a preferir a tecnologia; como um renomado obstetra do Canadá disse: "A natureza é uma má obstetra". "
Referências
1 Harer W. Patient choice cesarean. Am Coll Obstet Gynecol Clin Rev 2000; 5: 2.
2 Al-Mufti R, McCarlin A, Fisk MN. Survey of obstetricians’ personal preference and discretionary practice. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol 1997; 73: 1.
3 Controversies: should doctors perform an elective caesarean section on request? BMJ 1998; 317: 463.
4 Sachs B, Castro M, Frigoletto F. The risks of lowering the cesareandelivery rate. N Engl J Med 1999; 340: 54–57.
5 Showlater E, Griffen A. All women should have a choice; and Bastian H. Health has become secondary to a sexually attractive body. BMJ 1999; 319: 1397.
6 Hall M, Bewley S. Maternal mortality and mode of delivery. Lancet 1999; 354: 776.
7 Wagner M. Pursuing the birth machine: the search for appropriate birth technology. Sydney: ACE Graphics, 1994.
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9 Goer H. The thinking woman’s guide to a better birth. New York: Penguin/Putnam, 1999.
10 Plaut M, Schwartz M, Lubarsky S. Uterine rupture associated with the use of misoprostol in the gravid patient with a previous cesarean section. Am J Obstet Gynecol 1999; 180: 1535–42.
11 Smith J, Hernandez C, Wax J. Fetal laceration injury at cesarean delivery. Obstet Gynecol 1997; 90: 344–46.
12 Birchard K. Defence union suggest new approach to handling litigation costs in Ireland. Lancet 1999; 354: 1710.
13 Stephenson P. International differences in the use of obstetrical interventions. Copenhagen: WHO European Regional Office, 1992.
14 Wagner M. The public health versus clinical approach to maternity services: the emperor has no clothes. J Public Health Policy 1988; 19:25–35.
15 Olatunbosun O, Edouard L, Pierson R. British physicians’ attitudes to evidence based obstetric practice. BMJ 1998; 316: 365.
16 Goodstein D. Conduct and misconduct. Ann NY Acad Sci 1996; 775:31–38.
17 Rattner D. Sobre a hipotese de establizacao das taxas de cesarea do Estado de Sao Paulo, Brasil. Rev Saude Publ 1996; 30:19–33.
18 Secretariat of Health. Sao Paulo State, Brazil, 1999.
19 FIGO Committee for the Ethical Aspects of Human Reproduction and Women’s Health. Ethical aspects regarding cesarean delivery for non-medical reasons. Int J Obst Gynecol 1999; 64: 317–22.
20 World Health Organization. Appropriate technology for birth. Lancet 1985; ii: 436–37.
21 Notzon F. International differences in the use of obstetric interventions. JAMA 1990; 263: 3286–91.
22 Lomas J, Enkin M. Variations in operative delivery rates. In:Chalmers I, Enkin M, Keirse M, eds. Effective care in pregnancy and childbirth. Oxford: Oxford University Press, 1989.
23 Wagner M. Midwifery in the industrialized world. J Soc Obstet Gynecol Canada 1998; 20: 1225–34.
24 Wagner M. A global witch-hunt. Lancet 1995; 346: 1020–22.

Wagner M. Choosing caesarean section. Lancet 2000; 356: 1677-80.
Tradução: Dan Gayoso, Júlia Morim & Moema Silva.
Revisão: Alice Morim.
Fonte: Parto do Princípio

 Mil beijos

Doula Pati Fróes
Carinho, apoio e cuidado no momento que a mulher mais precisa